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Reflexão

Eu sou maluco

Ilustração da reflexão Eu sou maluco

Eu sou maluco

Eu sou maluco.

Mas maluco do bem, sabe?

Daqueles que olham pra uma ideia que todo mundo acha absurda e pensam:

“É... pode dar merda.”

E fazem mesmo assim.

Aí, se dá errado, aparece uma fila de gente dizendo que já sabia.

Mas quando dá certo, a frase muda:

“PUTA QUE PARIU, esse cara é maluco.”

E eu confesso que gosto mais da segunda.

Sempre tive dificuldade com a vida em modo econômico.

Não sei ficar pela metade.

Não sei entrar num projeto com 30% de vontade, numa relação com 40% de presença ou permanecer num lugar simplesmente porque ir embora daria trabalho.

Quando eu acredito, eu vou com 200%.

Quando deixa de fazer sentido, alguma coisa dentro de mim começa a arrumar as malas antes mesmo que eu perceba.

E talvez uma das coisas que mais confundam sobre mim seja justamente essa:

eu não tenho medo de mudar de ideia.

Aliás, tenho muito mais medo de continuar defendendo uma ideia idiota apenas porque fui eu quem a defendeu ontem.

Costumo brincar que, se existe uma coisa da qual tenho convicção, é que os mais convictos costumam ser os maiores idiotas.

Porque quem tem certeza demais para de perguntar.

E quem para de perguntar começa a confundir opinião com identidade.

Aí pronto.

Não pode mudar de ideia porque parece fraqueza.

Não pode admitir que errou porque fere o ego.

Não pode descobrir uma versão melhor de si porque passou anos defendendo a anterior.

Eu não.

Sou muito mais Raul Seixas.

Prefiro ser uma metamorfose ambulante a passar a vida inteira defendendo uma versão minha que já venceu a validade.

Eu mudo de roupa.

Mudo de gosto.

Mudo de opinião.

Mudo de projeto.

Mudo de endereço.

Mudo de sonho.

Às vezes mudo até de direção no meio do caminho porque descobri uma estrada mais bonita.

E não vejo isso como falta de constância.

Constância não é permanecer no mesmo lugar. Constância é continuar fiel ao que faz sentido para você.

Tem gente que se orgulha de aguentar.

Eu me orgulho de perceber.

Perceber quando acabou.

Quando não cabe mais.

Quando virou obrigação.

Quando estou ali apenas preenchendo cadeira, cumprindo tabela, empurrando a vida com a barriga.

Eu não nasci pra fazer hora.

Se eu estiver, eu quero estar.

Se eu amar, quero amar.

Se eu trabalhar, quero construir.

Se eu acreditar, quero defender.

Se eu estiver feliz, você vai saber.

Se estiver triste, provavelmente também.

E se eu estiver PUTO DA CARA...

Bom...

Não será necessário nenhum comunicado oficial.

Meu rosto costuma lançar a nota à imprensa antes de mim.

Eu sou expressivo.

Eu hablo meixmo. Hahaha.

Se você procura alguém que concorde com tudo, sorria educadamente e diga “claro, perfeito” enquanto pensa exatamente o contrário, sinto informar:

Contrariando Roberto Carlos, esse cara não sou eu.

Eu questiono.

Discordo.

Bato de frente.

Às vezes por convicção.

Às vezes porque acredito que alguém precisa dizer aquilo que todo mundo está cochichando pelos corredores.

E, admito, em algumas raras ocasiões, só porque alguém precisava descobrir na prática que remédio pra doido é um doido e meio.

Hahaha.

Mas existe uma parte da minha maluquice que eu gosto ainda mais.

Eu incentivo pessoas.

Se você vier me contar uma ideia absurda, dificilmente minha primeira pergunta será:

“E se der errado?”

Provavelmente será:

“E se der certo pra caralho?”

Porque o mundo já tem gente demais explicando por que você não deveria tentar.

Família preocupada.

Amigo traumatizado.

Conhecido frustrado.

Especialista em sonho alheio.

Gente que nunca pulou querendo te ensinar sobre paraquedas.

Eu prefiro outra posição.

Se eu conhecer aquele caminho e souber que existe um precipício logo depois da curva, eu vou te avisar.

Vou tentar evitar que você quebre os dentes onde eu já quebrei os meus.

Mas, fora isso?

Vai, porra.

Vai.

Tenta.

Arrisca.

Muda.

Começa.

Recomeça.

Faz a tal coisa que estão dizendo que é loucura.

Porque, mesmo quando dá errado, uma tentativa verdadeira costuma ensinar mais do que dez anos imaginando o que teria acontecido.

A vida me ensinou que segurança demais também cobra preço.

Só que ela manda a conta depois.

Vem em forma de arrependimento.

De “eu queria ter”.

De “eu podia ter”.

De “quem sabe se naquela época...”

Eu prefiro algumas cicatrizes.

Tenho várias.

Algumas vieram de escolhas ruins.

Outras de confiar demais.

Outras de gente pequena tentando vencer no ego aquilo que não conseguia sustentar na grandeza.

Faz parte.

Porque uma coisa curiosa acontece quando alguém tenta te diminuir:

às vezes a única coisa que consegue é te obrigar a lembrar do seu tamanho.

Tem porta que bate atrás da gente com tanta força que parece tragédia.

Meses depois você percebe que o barulho era só o anúncio de que estava finalmente livre para abrir outra.

E lá vou eu de novo.

Mudando.

Arriscando.

Apostando.

Com aquela mistura absolutamente irresponsável de coragem, curiosidade, inconformismo e fé de que ainda existe coisa grande demais para viver.

Eu sou da paz.

Mas nunca confunda paz com incapacidade de guerra.

Não escolho a paz porque sou inofensivo.

Escolho porque aprendi que força de verdade não precisa ficar provando força o tempo inteiro.

Agora, se a vida exigir luta...

meu irmão...

tem um guerreiro aqui.

Não porque eu nunca caí.

Justamente porque já caí algumas vezes e descobri uma coisa importante:

eu levanto rápido pra caralho.

Talvez essa seja minha maluquice.

Eu não tenho compromisso com permanecer.

Tenho compromisso com estar vivo.

Com sentir.

Com me divertir enquanto construo.

Com me apaixonar pelo que faço.

Com mudar quando precisar.

Com admitir quando estiver errado.

Com ir embora quando permanecer significar me abandonar.

Com começar outra vez, quantas vezes forem necessárias.

Algumas pessoas vão chamar isso de instabilidade.

Outras, de coragem.

Eu não estou muito preocupado com o nome.

Só sei que uma vida completamente previsível nunca me interessou.

Eu sou maluco.

Mas descobri que, quando a minha maluquice encontra outro maluco do bem, daquele que também sonha grande, trabalha muito, questiona o óbvio e não tem medo de parecer ridículo antes de parecer genial...

aí, meu amigo...

costuma dar um resultado bom pra caralho.

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