emekaartigos
← Todos os artigos
Artigo

A Fórmula 1 não vende corridas. Vende relevância.

11 min de leitura
Capa de A Fórmula 1 não vende corridas. Vende relevância.
Modo de leitura
A Fórmula 1 moderna une velocidade, narrativa cinematográfica e alta gastronomia.

A Fórmula 1 moderna une velocidade, narrativa cinematográfica e alta gastronomia.

Como a categoria transformou velocidade em entretenimento, pertencimento e uma das plataformas de branding mais valiosas do mundo.

Meu primeiro sonho de infância foi ser piloto de Fórmula 1.

Ainda vou correr por alguma equipe na Porsche Cup ou em algo do gênero. Podem anotar.

Talvez por isso eu acompanhe o automobilismo com um olhar que mistura paixão e negócios. Eu vejo o carro, o piloto, a estratégia e a disputa na pista. Mas também vejo algo ainda maior: uma das máquinas de construção de marca mais sofisticadas do mundo.

Porque branding, no fim das contas, é a arte de ocupar espaço na cabeça das pessoas.

E poucas propriedades no planeta conseguiram ampliar esse espaço de forma tão consistente quanto a Fórmula 1.

Durante muito tempo, a F1 foi percebida como um esporte técnico, caro, masculino e relativamente inacessível. A corrida era o produto. O piloto aparecia de capacete. Os bastidores eram protegidos. Quem não entendia de motor, pneu, aerodinâmica ou estratégia tinha dificuldade para entrar naquele universo.

A Liberty Media, que assumiu o controle comercial da categoria em 2017, entendeu que o problema não estava no produto. O problema estava na narrativa, na distribuição e nas portas de entrada.

A F1 já tinha velocidade. Faltava transformar velocidade em cultura.

Os números impressionam, mas precisam ser comparados corretamente

Em 2025, a Fórmula 1 informou ter alcançado 827 milhões de fãs no mundo, crescimento de 63% em relação a 2018. No balanço do primeiro semestre de 2026, a categoria já falava em mais de 830 milhões. Segundo a própria F1, essa base tornou a categoria a maior liga esportiva anual do mundo em número de fãs, 11,4% acima da NBA. A ressalva é importante: trata-se de uma estimativa global de base de fãs, não de audiência simultânea de uma transmissão. Formula 1, Season Review 2025 e Formula 1, Half Year Review 2026.

Isso evita uma comparação tentadora, mas metodologicamente errada: colocar a audiência global média de um fim de semana de F1 ao lado da audiência americana das finais da NBA. São universos, janelas e metodologias diferentes.

A comparação mais honesta é observar a capacidade de a categoria manter atenção recorrente, global e distribuída ao longo do ano.

O calendário de 2026 foi estruturado com 24 fins de semana de Grande Prêmio, em 21 países e cinco continentes, de março a dezembro. Não é um grande pico a cada quatro anos. É uma sequência de eventos premium durante nove meses, atravessando fusos, culturas, cidades e mercados consumidores. Calendário oficial da Fórmula 1.

A escala da Fórmula 1 em números:

  • 827 milhões: base global de fãs em 2025.

  • 63%: crescimento da base desde 2018.

  • 43%: parcela dos fãs com menos de 35 anos.

  • 42%: participação feminina na base.

  • Mais de 126 milhões: seguidores nas redes da F1 no primeiro semestre de 2026.

  • 6,75 milhões: público presencial ao longo da temporada de 2025.

  • 24 corridas, em 21 países: configuração original do calendário de 2026.

O crescimento também não veio apenas dos fãs tradicionais. Em 2026, 43% da base tinha menos de 35 anos, 42% era feminina e, segundo os estudos divulgados pela categoria, mulheres representavam três em cada quatro novos fãs. No primeiro semestre do ano, os canais sociais da F1 ultrapassaram 126 milhões de seguidores, com alta anual de 48% nas visualizações de vídeo. Formula 1, Half Year Review 2026.

Em outras palavras, a F1 não apenas cresceu. Ela rejuvenesceu, diversificou e aumentou a frequência de contato com o público.

Isso é branding.

A corrida deixou de ser o único produto

A maior decisão da nova gestão não foi mudar o carro. Foi mudar o enquadramento.

A Fórmula 1 percebeu que as pessoas não se conectam profundamente com máquinas. Elas se conectam com pessoas, conflitos, rivalidades, ambições, quedas e redenções.

Foi exatamente esse o papel de Drive to Survive. A série da Netflix não tentou ensinar aerodinâmica antes de conquistar a atenção do público. Primeiro apresentou personagens. Mostrou a pressão sobre os pilotos, a política entre as equipes, as disputas entre companheiros, o medo de perder um assento, o ego dos chefes e o custo humano da alta performance.

Depois que o público se importou com as pessoas, começou a se importar com a corrida.

Esse é um ensinamento brutal para qualquer marca: informação explica, mas história conecta.

A própria pesquisa global de fãs de 2025 mostra essa mudança. Entre os participantes, 61% disseram interagir diariamente com conteúdos da F1, 94% pretendiam continuar acompanhando a categoria cinco anos depois e 86% assistiam a 16 ou mais corridas por temporada. Global F1 Fan Survey 2025.

Perceba o que aconteceu: uma propriedade que antes dependia do domingo passou a ocupar a semana inteira.

Hoje a corrida é apenas o centro de um sistema que inclui séries, filmes, redes sociais, canais próprios, F1 TV, games, simuladores, podcasts, produtos licenciados, experiências, hospitalidade e conteúdo de bastidores.

A F1 não disputa atenção somente com outros esportes. Disputa com Netflix, TikTok, cinema, moda, games e entretenimento.

E consegue participar de todos eles sem deixar de ser Fórmula 1.

O resultado apareceu no negócio

Em 2017, primeiro ano sob o controle da Liberty Media, a Fórmula 1 registrou receita de US$ 1,783 bilhão. Em 2025, chegou a US$ 3,87 bilhões, com lucro operacional de US$ 632 milhões. A receita mais do que dobrou no período. Resultados de 2017 e resultados de 2025.

Não foi crescimento baseado em uma única fonte. A categoria ampliou direitos de mídia, patrocínios, taxas pagas por promotores, hospitalidade, licenciamento, assinaturas e experiências próprias.

É isso que torna a transformação tão relevante. A F1 não encontrou apenas mais pessoas para assistir ao mesmo produto. Ela encontrou mais formas de criar, distribuir e capturar valor em torno dele.

O mercado de patrocínios evidencia esse movimento. Segundo a SponsorUnited, as dez equipes da F1 geraram US$ 2,54 bilhões em patrocínios em 2025, crescimento de 22% em um ano, distribuídos em 382 acordos. A NFL, com 32 equipes e cerca de 3.700 acordos mapeados, gerou aproximadamente US$ 2,7 bilhões. SponsorUnited, F1 Sponsorship Intelligence Report 2025-26 e NFL Marketing Partnerships Report 2025.

A diferença aparece na concentração dos acordos:

  • Fórmula 1: US$ 2,54 bilhões, dez equipes, 382 acordos mapeados e valor médio implícito de aproximadamente US$ 6,6 milhões por acordo.

  • NFL: US$ 2,7 bilhões, 32 equipes, cerca de 3.700 acordos mapeados e valor médio implícito próximo de US$ 730 mil por acordo.

grafico_f1_patrocinios_2025.png

Os valores são estimativas da SponsorUnited, baseadas em metodologia proprietária, mas a diferença de ordem de grandeza é reveladora. A F1 trabalha com escassez. Poucas equipes, poucos espaços realmente nobres e uma plataforma de alcance global. Ela não vende apenas exposição. Vende associação com tecnologia, precisão, performance, inovação, luxo e alta competitividade.

Essa percepção também elevou o valor dos ativos. Em 2025, a Forbes estimou que todas as dez equipes valiam pelo menos US$ 1,5 bilhão. A média chegou a US$ 3,6 bilhões, alta de 89% em dois anos. A Ferrari foi avaliada em US$ 6,5 bilhões e a Mercedes, em aproximadamente US$ 6 bilhões. Forbes, equipes mais valiosas da F1 em 2025.

O teto de gastos também ajudou a mudar a lógica econômica do esporte. Em 2026, o limite subiu para US$ 215 milhões, mas com um escopo maior de despesas incluídas. O objetivo declarado é reduzir a distância produzida pelo poder financeiro, aumentar a estabilidade de longo prazo e tornar a competição menos dependente de quem consegue simplesmente gastar mais. Não significa que todas as equipes se tornaram iguais ou automaticamente lucrativas. Significa que o sistema passou a proteger melhor a sustentabilidade do grid. Explicação oficial sobre o teto de gastos de 2026.

Cada Grande Prêmio é uma plataforma econômica local

DadosImpacto econômico do GP de São Paulo

Fonte: Prefeitura de São Paulo e FGV

Grandes Prêmios impulsionam a economia local com turismo, serviços e visibilidade global.

Grandes Prêmios impulsionam a economia local com turismo, serviços e visibilidade global.

DadosImpacto Econômico do GP de São Paulo

Fonte: Prefeitura de São Paulo e FGV

O valor da F1 não termina nas equipes, nos patrocinadores ou nas emissoras. Cada etapa transforma temporariamente uma cidade em parte da narrativa global da categoria.

O GP de São Paulo de 2025 recebeu 303.627 pessoas e gerou impacto econômico estimado em R$ 2,3 bilhões. Foram 23,7 mil profissionais envolvidos. Segundo estudo da FGV divulgado pela Prefeitura, cada R$ 1 investido no evento retornou R$ 7,14 à economia local. Prefeitura de São Paulo e FGV.

O crescimento é consistente: R$ 960 milhões em 2021, R$ 1,37 bilhão em 2022, R$ 1,64 bilhão em 2023, R$ 1,96 bilhão em 2024 e R$ 2,3 bilhões em 2025.

Isso ajuda a explicar por que países e cidades disputam espaço no calendário. Um GP não entrega apenas turistas. Entrega ocupação hoteleira, restaurantes, transporte, empregos, arrecadação, negócios, hospitalidade corporativa e exposição internacional do destino.

A pista é o palco. A cidade inteira vira mídia.

A Apple não comprou apenas transmissão. Comprou um ecossistema.

Em outubro de 2025, Apple e Fórmula 1 anunciaram um contrato de cinco anos para a transmissão exclusiva da categoria nos Estados Unidos a partir de 2026. Os valores não foram divulgados oficialmente, mas o Financial Times reportou um acordo de US$ 700 milhões, cerca de US$ 140 milhões por temporada. O contrato anterior da ESPN girava em torno de US$ 85 milhões anuais. Anúncio oficial da Apple e Financial Times.

Antes disso, a Apple já havia produzido F1: The Movie, com Brad Pitt.

Apple_TV_F1_key_art_graphic_header_4_1_show_home.jpg.og.jpg

O filme não arrecadou quase US$ 1 bilhão, como chegou a circular. A bilheteria mundial terminou em aproximadamente US$ 634 milhões. Ainda assim, tornou-se o longa esportivo de maior bilheteria da história, o maior sucesso teatral da Apple e o filme de maior bilheteria da carreira de Brad Pitt. No Rotten Tomatoes, alcançou 82% de aprovação da crítica e 97% do público verificado. Apple, Box Office Mojo e Rotten Tomatoes.

Chamar o filme de “post de influencer da Apple” é uma brincadeira. Mas, estrategicamente, não está tão longe da verdade.

Foi branded entertainment em escala cinematográfica.

A equipe APXGP era fictícia, mas o universo era real. As corridas, os autódromos, os pilotos, as equipes e os patrocinadores existentes apareciam como parte orgânica da história. A Apple não interrompeu a cultura para anunciar. Ela entrou na cultura, ajudou a ampliá-la e, logo depois, comprou o direito de distribuí-la ao vivo em um mercado estratégico.

Isso não é apenas mídia. É integração vertical de atenção.

O Nubank entendeu que patrocínio não pode terminar no logotipo

carro F1 Nu.jpeg

Ativações contemporâneas criam narrativas ricas além do espaço tradicional de logotipo.

Em janeiro de 2026, o Nu anunciou uma parceria global de vários anos com a Mercedes-AMG Petronas. O movimento conversa diretamente com a expansão da marca nos Estados Unidos e se soma ao acordo de naming rights do novo estádio do Inter Miami.

Para o GP de Miami, a marca não se limitou a colocar o “nu” no uniforme. Criou três macacões roxos diferentes para George Russell e Kimi Antonelli, um para cada dia do fim de semana. Cada peça carregava coordenadas relacionadas à história de expansão da empresa. A ação ainda incluiu um filme de marca e a House of Nu, experiência física de três dias em Wynwood. Anúncio da parceria e ativação do GP de Miami.

Vale a precisão: algumas imagens que circularam mostram um carro Mercedes inteiramente roxo. O anúncio oficial confirma os macacões, o filme e a experiência, não uma pintura integral do carro.

E o case real é mais interessante do que o mockup.

O Nu usou sua cor proprietária, a história da empresa, os pilotos, o território físico de Miami e a ambição de entrar nos Estados Unidos para construir uma única narrativa. Não comprou apenas visibilidade. Criou significado.

pilotos Nu.jpeg

É assim que um patrocínio deixa de ser aluguel de espaço e passa a ser construção de marca.

Então, vale a pena investir na Fórmula 1?

Sim, mas não para qualquer empresa e não de qualquer maneira.

Vale para marcas que buscam escala global, posicionamento premium, acesso a públicos jovens e digitalizados, relacionamento B2B, hospitalidade, entrada em novos mercados ou associação com tecnologia e performance.

Vale, principalmente, para quem entende que a taxa de patrocínio é apenas o ingresso. O retorno nasce da ativação: conteúdo, produto, experiência, relacionamento, distribuição e consistência.

Não vale para quem espera que um logotipo pequeno no carro produza vendas automáticas. Não vale para quem não tem orçamento, equipe ou criatividade para transformar o direito adquirido em presença cultural. E não vale quando a empresa entra porque o dono gosta de corrida, mas não consegue explicar qual objetivo estratégico pretende alcançar.

Patrocínio sem estratégia é vaidade cara.

Patrocínio com estratégia pode acelerar anos de construção de marca.

A F1 não se tornou mais valiosa apenas porque os carros ficaram mais rápidos. Tornou-se mais valiosa porque aprendeu a ocupar mais espaços na vida das pessoas sem perder o espaço da pista.

Esse é o grande ensinamento para qualquer empresa.

Um produto excelente pode conquistar clientes. Uma narrativa excelente pode formar fãs. E fãs defendem, acompanham, compram, retornam e ajudam a marca a atravessar gerações.

Por isso, a pergunta final não é se vale a pena investir na Fórmula 1.

É se a sua marca saberia o que fazer depois de entrar no grid.

Nota metodológica: dados de fãs, demografia, audiência e engajamento são estimativas divulgadas pela Fórmula 1 e por pesquisas contratadas ou conduzidas com parceiros. Valores de patrocínio e valuations são estimativas de mercado, não preços públicos de transações. Dados financeiros da Formula One Group foram extraídos dos resultados da Liberty Media. Consulta realizada em agosto de 2026.

11 min restantes

Newsletter

Receba os próximos textos por e-mail

Artigos, reflexões e notícias direto na sua caixa de entrada. Sem ruído, sem spam.

Enviamos um e-mail de confirmação antes de qualquer envio. Você pode sair quando quiser.

Discussão

Os comentários passam por moderação antes de aparecerem publicamente.

Entre ou crie sua conta para participar da discussão.