emekaartigos
← Todas as reflexões
Reflexão

Quanto custa a liberdade?

Ilustração da reflexão Quanto custa a liberdade?

Tempos atrás me perguntaram se eu sonhava em ter um jato.

De bate-pronto, minha resposta seria sim.

Mas eu não gosto de responder perguntas importantes sem antes desconfiar da resposta óbvia. E não existe maneira melhor de fazer alguém pensar do que devolver uma certeza em forma de pergunta:

Por que eu quero ter um jato?

Eu quero o jato ou quero tudo aquilo que acredito que ele representa?

Sucesso.

Poder.

Riqueza.

Liberdade.

Reconhecimento.

Para quem não nasceu rico, é muito fácil imaginar a riqueza por meio de seus símbolos. Afinal, ninguém consegue fotografar a liberdade, mas consegue fotografar uma Ferrari. Ninguém posta a paz de espírito estacionada na garagem, mas pode postar um carro importado. Ninguém coloca equilíbrio emocional no pulso, então coloca um Rolex.

O fascínio pelos símbolos materiais diante da busca pela verdadeira liberdade interior.

O fascínio pelos símbolos materiais diante da busca pela verdadeira liberdade interior.

Os símbolos tornam visível aquilo que gostaríamos que os outros reconhecessem em nós.

Por isso tanta gente não compra apenas objetos. Compra provas.

Provas de que venceu.

Provas de que não é mais aquela pessoa que um dia foi ignorada.

Provas de que saiu do lugar de onde veio.

Provas de que agora pode entrar em ambientes nos quais antes não seria recebida.

A ostentação, muitas vezes, é o grito de alguém que passou tempo demais se sentindo invisível.

É o pobre menino rico.

Rico na conta bancária, mas ainda dependente do olhar alheio. Cercado de coisas caras, mas incapaz de distinguir preço de valor. Escolhe o vinho pela etiqueta, a roupa pela marca, o restaurante pela lista de espera e o relógio pelo tamanho do logotipo.

Não compra o que aprecia.

Compra aquilo que acredita que será apreciado pelos outros.

E esse é um tipo sofisticado de pobreza.

Porque a pobreza mais difícil de abandonar não é a falta de dinheiro. É a necessidade permanente de provar que agora se tem dinheiro.

Não há problema algum em desejar conforto, beleza ou luxo. Eu gosto das coisas boas do mundo moderno. Gosto de bons hotéis, bons restaurantes, tecnologia, carros, viagens e experiências bem construídas.

Este texto não é um elogio à pobreza, nem uma defesa da renúncia absoluta, como nos ensinamentos cínicos de Diógenes de Sínope.

Não quero morar dentro de um barril.

Quero apenas ter certeza de que aquilo que possuo não passou a me possuir.

Porque existe uma diferença imensa entre desfrutar do luxo e precisar do luxo.

Uma coisa é escolher.

Outra coisa é depender.

Liberdade não é poder comprar tudo.

Liberdade é não precisar comprar nada para se sentir alguém.

É poder entrar em uma loja e escolher o que quiser, inclusive escolher sair sem levar nada.

É poder viajar de primeira classe sem acreditar que isso o torna superior a quem está na econômica.

É dirigir um carro extraordinário sem precisar usá-lo para estacionar sua autoestima.

É apreciar um relógio sem esperar que ele diga aos outros quanto vale o homem que o está usando.

O problema nunca esteve nas coisas.

O problema começa quando entregamos às coisas a responsabilidade de explicar quem somos.

Dinheiro compra conforto, acesso, segurança, tempo e possibilidades. Tudo isso é valioso. Romantizar a falta de dinheiro é um privilégio de quem nunca sentiu o desespero de não saber como pagar uma conta.

Mas o dinheiro não compra repertório.

Não compra curiosidade.

Não compra sensibilidade.

Não compra cultura.

Não compra a capacidade de contemplar.

Não compra o olhar de quem chega a um lugar novo e deseja compreender sua história, sua comida, sua arquitetura, seus conflitos, seus costumes e as pessoas que construíram aquela terra.

Há quem percorra o mundo inteiro sem sair de si mesmo.

Fotografa tudo, mas não observa nada.

Hospeda-se nos melhores hotéis, mas não conhece as cidades.

Come nos restaurantes mais caros, mas não descobre os sabores.

Volta com a mala cheia e a alma exatamente como saiu.

Eu não quero apenas passar pelos lugares.

Quero que os lugares passem por mim.

Quero conhecer o mundo.

Quero pisar em cada pedaço de terra que a vida me permitir alcançar e viver as melhores experiências possíveis enquanto estiver aqui.

Quero ver um leão de perto na África.

Contemplar a aurora boreal.

Conhecer uma plantação na China.

Assistir a uma final da Champions League.

Caminhar por um vilarejo no Congo.

Observar um canguru em seu habitat natural.

Tocar as pedras de uma antiga construção asteca.

Ficar diante do Taj Mahal e pensar no que uma pessoa apaixonada foi capaz de construir para eternizar seu amor.

Se for possível, quero ver a Terra do espaço.

Quero conhecer o fundo do oceano.

Quero dirigir um carro esportivo pelas ruas de Dubai e também passar horas deitado em uma rede, em uma pousada simples, depois de aproveitar uma praia do Nordeste brasileiro.

Não quero colecionar apenas objetos.

Quero colecionar espantos.

A verdadeira riqueza reside na capacidade de se encantar com o mundo ao redor.

A verdadeira riqueza reside na capacidade de se encantar com o mundo ao redor.

Quero viver situações que aumentem o tamanho da minha consciência e diminuam o tamanho da minha arrogância.

Porque quanto mais conhecemos o mundo, mais percebemos o quanto ainda não conhecemos.

Cada viagem deveria nos tornar menos donos da verdade.

Cada cultura deveria nos lembrar de que existem inúmeras maneiras de viver.

Cada paisagem deveria nos devolver a consciência de que somos pequenos.

E cada pessoa encontrada pelo caminho deveria nos ensinar que nenhuma conta bancária é capaz de resumir a riqueza de uma existência.

Então, quando me perguntam se eu quero ter um jato, minha resposta mudou.

Eu não sonho necessariamente em ter um jato.

Eu sonho em ter o poder de escolher quando um jato faz sentido.

Quero ter condições de comprá-lo, alugá-lo, compartilhá-lo ou simplesmente concluir que não preciso dele.

Isso é muito diferente.

Porque, se a minha definição de uma vida bem-sucedida exigir que eu possua um jato, então eu não sou livre.

Continuo obedecendo.

Apenas troquei de senhor.

Antes, era escravo da falta.

Agora, sou escravo do desejo.

E a pior prisão não é aquela que nos impede de possuir alguma coisa.

É aquela que nos convence de que só seremos alguém quando a possuirmos.

A verdadeira riqueza não está em ter tudo o que se deseja.

Está em desejar sem se tornar refém.

Desfrutar sem depender.

Possuir sem pertencer às próprias posses.

Ir embora quando quiser.

Ficar quando fizer sentido.

Comprar quando houver valor.

Recusar quando houver apenas vaidade.

No fim, liberdade não é chegar ao ponto em que você pode ter tudo.

É chegar ao ponto em que nenhuma coisa consegue definir quem você é.

A verdadeira autonomia surge quando as posses deixam de definir a própria identidade.

A verdadeira autonomia surge quando as posses deixam de definir a própria identidade.

Quanto custa a liberdade?

Muito.

Ela custa a coragem de abrir mão da necessidade de parecer bem-sucedido para, finalmente, construir uma vida que faça sentido para você.

Newsletter

Receba os próximos textos por e-mail

Artigos, reflexões e notícias direto na sua caixa de entrada. Sem ruído, sem spam.

Enviamos um e-mail de confirmação antes de qualquer envio. Você pode sair quando quiser.

Discussão

Os comentários passam por moderação antes de aparecerem publicamente.

Entre ou crie sua conta para participar da discussão.