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Reflexão

Ser feliz ou estar feliz?

Ilustração da reflexão Ser feliz ou estar feliz?

Clóvis de Barros Filho disse uma vez algo que nunca mais saiu da minha cabeça:

“Felicidade é um pequeno momento que a gente gostaria que durasse para sempre.”

Desde então eu tenho um problema com uma pergunta aparentemente muito simples:

Você é feliz?

Como é que se responde isso?

Eu penso no quê?

Na minha vida inteira?

No último ano?

Na última semana?

Faço uma espécie de balanço patrimonial emocional?

Somam-se os almoços em família, as viagens, as gargalhadas, os amores, as conquistas, os abraços inesperados.

Depois descontam-se os términos, os lutos, os fracassos, as noites sem dormir, as decepções e todos aqueles dias em que levantar da cama já parecia uma vitória.

Se o saldo der positivo, sou feliz?

Parece absurdo.

Porque felicidade nunca foi uma conta.

Nosso primeiro erro é imaginar que uma pessoa feliz precisa estar feliz o tempo inteiro.

Isso seria insuportável.

Há dias em que a tristeza é a resposta mais saudável que podemos oferecer à vida.

Há perdas diante das quais sorrir não seria maturidade. Seria anestesia.

Há despedidas que precisam doer.

Há fracassos que precisam nos frustrar.

Há injustiças que precisam nos indignar.

Ser feliz não pode significar perder a capacidade de sofrer.

Eu acredito justamente no contrário.

É conseguir sofrer sem concluir que a vida perdeu o valor.

Os estoicos entenderam isso há milhares de anos. Não podemos escolher tudo o que nos acontece. Podemos, no entanto, trabalhar aquilo que os acontecimentos fazem dentro de nós.

Porque existe uma diferença enorme entre sentir a dor e construir uma casa dentro dela.

Entre sofrer uma derrota e transformar-se em derrotado.

Entre atravessar um dia triste e acreditar que se possui uma vida triste.

Por isso, felicidade não é exatamente alegria.

Alegria passa.

E ainda bem.

Nenhuma emoção nasceu para morar para sempre dentro de nós.

A vida acontece em ondas.

Tem dias em que o mar nos oferece pôr do sol.

Em outros, tempestade.

O problema é que passamos boa parte da existência tentando congelar o pôr do sol e impedir a tempestade.

E não conseguimos nenhum dos dois.

Brené Brown dedicou grande parte de seu trabalho a algo que conversa profundamente com isso: nossa coragem de abandonar a armadura, aceitar nossas imperfeições e nos apresentar ao mundo sem precisar representar o personagem que imaginamos que os outros esperam encontrar.

A cada dia me convenço mais de que uma das maiores fontes de infelicidade é justamente esta:

passar a vida inteira interpretando alguém.

O filho que esperavam.

O profissional que admirariam.

O homem forte que nunca chora.

A mulher perfeita que nunca falha.

O empresário bem-sucedido.

O marido exemplar.

A pessoa equilibrada.

O adulto sério.

Até que um dia você percebe que construiu uma vida admirável para todo mundo, menos para quem precisa vivê-la.

Você.

É exatamente por isso que gosto tanto da música A Maldição de Ser Feliz, do Allan Dias Castro.

Existe algo profundamente triste na obsessão humana pela normalidade.

Desde cedo alguém nos explica como devemos sentar, falar, vestir, trabalhar, amar, casar, produzir, envelhecer.

E qualquer felicidade que escape muito desse roteiro parece suspeita.

Como se existisse uma quantidade socialmente aceitável de entusiasmo.

Uma quantidade adequada de sonho.

Uma quantidade razoável de intensidade.

Não ria tão alto.

Não sonhe tão grande.

Não ame tanto.

Não queira demais.

Não seja tão você.

Seja normal.

Essa é a verdadeira maldição.

Não a de ser feliz.

A de passar a vida inteira tentando parecer normal para pessoas que também estão fingindo normalidade.

Felicidade é muito menos sobre conquistar tudo aquilo que imaginávamos quando crianças e muito mais sobre voltar a encontrar aquela criança antes que o mundo começasse a explicar quem ela deveria ser.

Porque quando somos crianças não perguntamos se somos felizes.

Nós simplesmente estamos ocupados demais sendo.

Correndo.

Inventando.

Rindo.

Criando.

Amando sem currículo.

Sonhando sem planilha.

Até que começamos a crescer e alguém nos ensina a esconder aquilo que parece estranho demais.

O cabelo.

O corpo.

A risada.

A sensibilidade.

O sonho.

A ambição.

A intensidade.

A personalidade.

E o palhaço aprende a ser sério.

Só que existe um preço terrível em passar tanto tempo interpretando um papel:

um dia você pode finalmente conseguir tudo aquilo que disseram que deveria querer…

e descobrir que quem recebeu a recompensa não foi você.

Foi o personagem.

Por isso eu ainda não sei responder quando alguém pergunta:

“Você é feliz?”

Mas hoje eu responderia diferente.

Eu tenho dias felizes.

Tenho dias difíceis.

Tenho perdas que ainda doem.

Tenho sonhos que ainda não alcancei.

Tenho coisas em mim que ainda estou tentando entender.

Mas, cada vez mais, consigo reconhecer a pessoa que vejo no espelho.

Felicidade não é viver sorrindo.

Não é eliminar a tristeza.

Não é controlar absolutamente tudo aquilo que sentimos.

Não é sequer chegar ao destino que planejamos.

Felicidade é aquele raro instante em que não existe distância entre quem somos, quem gostaríamos de ser e a vida que estamos vivendo.

Um instante em que a vida encaixa.

E por alguns segundos, como diria Clóvis, gostaríamos que aquilo durasse para sempre.

Mas não dura.

Nunca dura.

E é exatamente por isso que é tão precioso.

Porque felicidade não é possuir um momento.

É estar inteiro quando ele chega.

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